Relato do jornalista Henrique Skujis sobre os primeiros quatro dias da expedição “Honda – Pro outro lado da América”, viagem que teve início no último dia 28 de julho, em Parati, RJ, e que se encerra no próximo dia 13 de agosto. Acompanhe!

05/08/2019 por charlise

 

4º Dia – 31 de Julho de 2019
Trajeto: Refúgio Ecológico Caiman (Pantanal/MS) – Corumbá
Distância: 607 quilômetros
Piso: terra e asfalto

A onça não apareceu, mas pegou o jacaré
Em um dia debaixo de revoadas incríveis de pássaros no Pantanal, fomos caçar o felino, mas só vimos sua presa destroçada

Um bip frequente e baixinho alerta que Gaia está entre nós. Xipa, motorista da picape que nos leva pelo Pantanal, acelera. João, o guia, biólogo, aumenta o volume do rádio comunicador ligado à antena que capta a presença de Gaia – dela e de seu filhote. Gaia é filha de Esperança, também chamada de Grande Mãe. São três gerações de onças monitoradas pelo Onçafari, projeto de preservação do felino tocado pelo Refúgio Ecológico Caiman, no sul do Pantanal, Mato Grosso do Sul.

A frequência do bip aumenta. Gaia e a cria de quatro meses estão ali.Mas invisíveis, provavelmente descansam no meio de um capão. Havíamos saído uma hora antes da sede do refúgio. Avistar a onça era nosso maior gol, mas a gigante planície alagada tem tanto bicho que o maior felino das Américas pode esperar. O desfile animal pelo Pantanal começou com a revoada de uma dúzia de araras-azuis. A espécie esteve à beira da extinção, mas um projeto de recuperação, também tocado pela Caiman, colocou a ave nos céus de novo.

O próximo a se apresentar no palco do cerrado foi a ave símbolo do pedaço, sua excelência o tuiuiú. A maior ave voadora do Brasil pousou meio desengonçado em uma área alagada e começou a escarafunchar o fundo em busca do café da manhã. Apesar do tamanhão e da envergadura, que pode chegar a três metros de asa a asa, a decolagem foi fácil e de uma elegância improvável.

O desfile aéreo continuou com gaviões caramujeiros, carcarás, falcões,seriemas, aracuãs… Na terra é que a safra não estava farta. Mas só até uma parada em outra grande área alagada. Um jacaré. Dois jacarés. Três. Trinta e nove(mais ou menos) jacarés . Bicho pré-histórico. Sereno. Não se mexe. Imóvel. Estátua. Na terra, é lento, mas vira flecha debaixo d’água. Um pouco adiante, o cheiro forte antecipa um bando de queixadas, que dá no pé quando nos aproximamos. Uma turma de veados-campeiros aparece tranquila perto de um dos hotéis existentes no refúgio.Mas e a onça?

Damos mais uma volta em busca de Gaia ou de qualquer uma das 140 onças que zanzam pela Caiman. Antena em riste. Bips voltam a ser ouvidos. O carro se aproxima do capão. “Ali, ali.” “Onde, onde?” “Eu vi, eu vi”. Sim, Diego Zani, nosso cinegrafista, e a guia viram a onça. Só eles. E apenas uma parte dela. “Acho que era a traseira”, explica Zani. Logo adiante, um jacaré destroçado. Sobraram apenas a cabeça, parte da coluna vertebral, um teco do rabo e pedaços do couro. “O ataque deve ter sido ontem à noite ou no máximo agora pouco, pela manhã”, diz João. Amyr se aproxima da vítima e monta o quebra-cabeça: coloca na ordem. Cabeça-coluna-rabo.

Amyr se cansa. Quer ir visitar um amigo – pensa em uma pessoa para ter amigos em todo canto do mundo. Depois do almoço, seguimos a bordo do WR-V para uma fazenda a cerca de uma hora de viagem. Terra, buraqueira, costela de vaca, valetas… O SUV da Honda segue tranquilo até a fazenda onde Amyr encontra o amigo, Ruy Frota, o administrador da imensa propriedade que, sem exagero, deve ser maior que Sergipe.

Hora de tocar para a estrada. Rumo Corumbá. BR 262. Um radar atrás do outro, apesar da estrada vazia – ninguém nem indo nem vindo. Minutos depois de passar sobre o rio Paraguai, Corumbá aparece. No hotel Nacional, encontramos Marcelo Leite e Libera Costabeber. Ela conta que horas antes deu de cara com um jacaré na pista. “A coragem – que preciso ter para fazer o rali dos Sertões e para encarar viagens como essa – desapareceu. Não consegui passar. E se ele sai correndo atrás de mim.” Libera desceu da X-ADV e a empurrou para ultrapassar o réptil.

Estamos a dois passos da Bolívia. Amanhã, estaremos lá.

3º Dia – 30 de Julho de 2019
A ponte, a mensagem de Amyr e o graxaim

“Parem de só assistir documentários na TV. Saiam e desbravem o mundo”, disse o explorador em palestra na concessionária Honda de Campo Grande, a caminho do Pantanal

Não é toda terça à noite que você está conversando besteiras de monte com amigos sentado na varanda de uma fazenda no Pantanal e um filhote de graxaim dá as caras. Fazendo jus à irmandade com o cão, o bichinho se aproxima, meio receoso. Mais medroso estamos nós, claro. A vontade de chegar perto e acariciar o canídeo bege escuro é vencida pelo desconhecimento pelo seu comportamento. O bicho busca contato. Quer comida? Exceto olhares espantados e interjeições de surpresa, não ganha nada. Marina Lima, nossa produtora, não apaga a lanterna. Mais do que o lobinho, teme o ataque de uma onça. Diego Castellari, o diretor de vídeo da expedição, pita um Paiol. Eu olho o sol forrado de estrelas e penso em como começar este diário de bordo. O lobinho, outra maneira de chamar o graxaim, se vai.

Estamos no refúgio ecológico Caiman, hotel cravado no sul do Pantanal, a 45 quilômetros da cidade de Miranda. O dia foi longo. Começou às 8 da manhã quando partimos do hotel Cururu para cruzar o rio Paraná sobre a ponte Hélio Serejo e entrarmos no Mato Grosso do Sul. Imponente, com 2.550 metros de extensão, a ponte era a maior do Brasil até a inauguração da Rio-Niterói, em 1973. Como é bonito o segundo maior rio da América do Sul! Azul forte. Largo, caudaloso.

Mas o drone deu de ombros aos adjetivos e não quis subir para registrar a nossa passagem pela ponte. Um bloqueio tecnológico implantado em lugares como aeroportos e pontes impede que a maquininha levante voo. Estão em risco imagens importantes para contar a história do terceiro dia da viagem on the road que saiu de Paraty no último domingo e vai chegar ao litoral peruano daqui a duas semanas.O cinegrafista Diego Zani faz suas manobras e coloca o drone no ar.

Com as imagens feitas, seguimos para Campo Grande. Foram quatro horas por uma estrada plana, que bem poderia servir de “prova” para a turma que garante que a Terra não é redonda. Nas laterais da pista, muitos animais mortos. Na capital do Mato Grosso do Sul, a equipe seguiu para a concessionária Endocar, onde cerca de 60 pessoas, entre clientes, concessionários e jornalistas, nos esperavam. Em uma mini palestra, Amyr deu seu recado. “Parem de apenas ficar vendo séries e documentários na televisão. Saiam, desbravem o mundo. Carros como o Honda WR-V estão aí para isso. Mais do que máquinas, são uma ferramenta de mobilidade para realizar sonhos.”

Um pôr-do-sol, no caminho para o já citado Refúgio Ecológico Caiman fez com que o drone subisse novamente. Após mais de 400 quilômetros de asfalto pela BR-262 entramos à direita. São cerca de mais 50 quilômetros, uma hora e meia, por uma estrada de terra tranquila, apesar das costelas de vaca. O WR-V segura a onda e chegamos ao habitat daquele graxaim. Amanhã é dia de desvendar o Pantanal. E é bom não atrasar para a saída, marcada para as 7h. Amyr recomenda desbravar o mundo, mas não espera.
Tem tolerância zero para atrasos.

2º Dia – 29 de Julho de 2019
Trajeto: Campos do Jordão – Serra da Mantiqueira – Presidente Epitácio
Distância: 816 km
Piso: asfalto, terra leve e mato

A selva e a torre de pedra. E os sapos cururus

No trecho mais longo da viagem, uma passada pela capital paulista, um off-road diante do pôr-do-sol, o coaxar do anfíbio e uma esticada às barbas de Mato Grosso do Sul

Entrar em São Paulo, pegar a marginal Tietê, sair de São Paulo. A maior cidade do Brasil apenas como ponto de passagem, apenas como tentação que salta aos sentidos de um viajante com seu caos, sua imensidão, seus cheiros, seu aconchego. Para paulistanos acostumados a se envergonhar com seu rio, passar pela cidade e se mandar é uma espécie de vingança, sabe-se lá contra quem. Hoje a viagem Pro Outro Lado da América, depois de largar da marina do Engenho, em Paraty, e subir aos arredores de Campos do Jordão, desceu a serra da Mantiqueira e cruzou São Paulo apenas para seguir viagem.

Depois de ziguezaguear pelas pistas local e expressa da marginal, a viagem rumou forte para o oeste. Em um só tiro, todo o estado de São Paulo ficou para trás. Sorocaba, Assis, Bofete, Ourinhos, Porangaba, Santa Cruz do Rio Pardo, Palmital, Torre de Pedra, Rancharia, Caiuá… Foram12 horas e mais de 800 quilômetros de Carvalho Pinto, Castelo Branco e Raposo Tavares até desligar os carros diante do rio Paraná, em Presidente Epitácio, último rincão paulista antes do Mato Grosso do Sul.

Em uma primeira leitura, pode parecer um dia monótono. Mas viagens on the road quase nunca decepcionam. Sempre tem uma pedra no meio do caminho, sempre tem o prazer de dirigir, sempre tem uma pessoa que desanda a contar histórias, sempre tem a luz perfeita. Sempre ou quase sempre. Hoje a pedra no caminho foi uma elevação rochosa de 75metros cravada na zona rural da já citada Torre de Pedra. Para chegar lá e assistir de camarote ao pôr-do-sol, foi preciso subir uma montanha nunca antes trafegada. Mas antes de desvelar o highlight do dia, voltemos para a alvorada.

Um café da manhã de cinema no hotel Botanique despertou Amyr Klink e companhia. Era para ser no quarto, como manda o figurino deste hotel nas alturas da Mantiqueira. Mas resolvemos tomar o desjejum todos juntos em uma mesa do lado de fora do restaurante, com uma vista que todo olho quer ver. Estava programado um papo com Fernanda Ralston Semler, proprietária e idealizadora do Botanique e Ricardo Semler, empresário e escritor – entre seus livros, o best-seller Virando a Própria Mesa. Os dois já haviam se conhecido em um programa na rádio Eldorado, duas décadas atrás. Comeram juntos e trocaram lembranças e sedas. Amyr se disse impressionado com o conceito sustentável do Botanique, que se preocupa com o meio ambiente e tem 12 curadorias com foco brasileiro, na área de gastronomia, arquitetura, literatura e arte. Ricardo finalizou dizendo que imagina Amyr com 90 anos traçando a próxima viagem.

Foi do hotel, que tem partes em três cidades (Campos do Jordão, Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí), que o comboio seguiu rumo leste até chegar à marginal Tietê. Nessa mistura de estrada e cidade, Flávia Vitorino elogiou a eficiência do câmbio CVT, Joel citou a força do motor para ultrapassagens seguras e Amyr abusou do “piloto automático” nas boas esticadas do caminho.

Com muitos quilômetros pela frente, o trio acelerou sempre na velocidade máxima permitida. Foram apenas duas paradas. A primeira, para abastecer e almoçar. A segunda, foi o tal pitstop na Torre de Pedra, ápice do dia. Torre de Pedra é uma cidade minúscula. Tem menos de três mil habitantes, IDH elevado e, entre outros louros, é segura como uma cidade japonesa. Em 2018 registrou apenas dois furtos. E não se vê um homicídio lá há dez anos.

Para alcançar o melhor visual da torre, Amyr – sempre fora da curva – levou o WR-V até o cume de um morro onde, provavelmente, nunca um carro havia estado. Não havia indicação, não havia caminho, não havia sequer terra. Apenas mato e arbustos em uma subida tão ondulada como o cabo Horn – desculpem a comparação exagerada. Os três WR-V e as duas X-ADV não refugaram. Levaram a equipe para o cume, de onde o visual da torre de pedra, coitada, foi ofuscado por uma montanha piramidal emoldurada pelo céu em plena despedida do sol, a tal da luz perfeita.

E o cara que desandou a falar, como em toda boa viagem on the road, foi Amyr Klink. É uma história melhor que a outra. Não apenas sobre as epopeias marítimas, mas também das sagas cotidianas, como quando ajudou a vender a casa da atriz Maria Della Costa em Paraty, ou quando quase decepou a mão ao tentar podar uma seringueira, ou quando precisou pular do helicóptero direto no mar, ou quando participou da compra de um dirigível…. Em meio aos causos de Amyr, que fez questão de dirigir do começo ao fim da etapa, já na escuridão da Raposo Tavares,
foi só acelerar até Presidente Epitácio e estacionar na pousada Cururu, que, a propósito, fica na beira do rio, no caso o Paraná.

1º Dia – 28 de Julho de 2019
Trecho: Paraty – Cunha – Estrada das Pedrinhas – Serra da Mantiqueira – Campos do Jordão
Distância: 176 km
Piso: asfalto, terra e muita pedra

Do nível do mar aos 2 mil metros de altitude

Estrada das Pedrinhas rouba o protagonismo da Paraty-Cunha no primeiro dia da expedição Pro Outro Lado da América

Amyr e o Paratii se misturam. São um só. Com a simplicidade de quem prepara um café, o navegador solta as amarras do barco e sai flutuando pela baía da cidade que batiza a embarcação. A bordo, seguem também o jornalista Joel Leite, diretor do portal ECOInforme, e Flavia Vittorino, viajante com os dois pés, o corpo e a alma no mundo da aventura. O passeio na proa do barco com o qual Amyr circunavegou a Antártica e lá invernou por sete meses serve como uma espécie de abertura da expedição Pro Outro Lado da América. Amyr, Joel e Flávia cruzarão o continente de leste a oeste no comando de três WR-V, o SUV compacto da Honda. Serão quase oito mil quilômetros por terra entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

Enquanto o Paratii balançava calmamente no mar calmo na manhã deste domingo, dia 28 de julho e 2019, Amyr largou o timão por alguns segundos, deitou-se –barriga para baixo –, esticou a mão em direção ao mar com um galão e recolheu1,5 litro de água. Quer levar o líquido até o litoral peruano para, simbolicamente, unir os dois continentes.

Depois de desembarcar da lendária embarcação na marina do Engenho, o trio seguiu para assumir o comando dos WR-V. Ali, os esperavam Marcelo Leite e Líbera Costa beber, dois pilotos que terão a divertida missão de participar da expedição sobre duas X-ADV, a scooter da Honda, que, assim como o WR-V, tem tudo para fazer bonito no trânsito urbano, na estrada e na terra – essas capacidades, diga-se, serão colocadas à prova nessa jornada interoceânica. Uma palhinha sobre Marcelo – já rodou mais de 80 países sobre duas rodas – e sobre Líbera – tem inúmeras provas na bagagem, inclusive a participação no rali dos Sertões 2018.

Era para ser um dia leve, tendo a subida da exuberante estrada Paraty-Cunha como picos de prazer, dificuldade e beleza. Mas Amyr é macaco velho naquele pedaço. Pros lados de Guaratinguetá, virou para estibordo e de um quilômetro para outro, o asfalto impecável que dava vida mansa aos pneus sumiu e deu lugar a um caminho de terra em condições pós-guerra. Aqui, essa estrada é conhecida como estrada das Pedrinhas, quase uma tiração de sarro com os motoristas que topam encarar suas curvas fechadas, seu piso esburacado e suas valetas forradas de pedras de todos os tamanhos.

A suspensão do WR-V, que até então apenas trabalhava macia no asfalto, precisou mostrar valentia para superar a novidade inesperada. Os amortecedores com batentes hidráulicos na dianteira e reforçados na traseira trabalharam duro. Fizeram jus ao nome e amorteceram a pancadaria que vinha de baixo. “Ajudou muito na subida a boa altura do WR-V em relação ao solo e o torque do motor”, disse Joel, feliz da vida com o primeiro dia da jornada.

Em meio a veículos com tração 4×4, cavalos e peregrinos que caminham pela estrada para chegar à cidade de Aparecida, o SUV da Honda nem parecia um 4×2. Sentiu-se em casa. Vindo do nível do mar de Paraty, contornou com galhardia as curvas da serra da Mantiqueira e voou aos 1.971 metros de altitude com uma senhora elegância, apesar de chegar ao cume pintado de bege pela terra. As X-ADV também deram o que falar. “Ela se transformou”, disse Marcelo. “De uma scooter macia e divertida para rodar na estrada para uma trail capaz de enfrentar uma subida dura como essa”, contou o motociclista, tão coberto de pó quanto a moto.

A descida rumo a Campos do Jordão, também sinuosa, continuou exigindo da suspensão. E do freio. Em trechos mais íngremes, após sugestão de Joel, optou-se por colocar o câmbio do WR-V na posição L, de Low, para usar o freio-motor e poupar as pastilhas. Bem mais previsível do que essa aventura de última hora era o trânsito a ser enfrentado no fim de tarde de domingo de férias de inverno na chegada a Campos. Tivemos que cruzar parte da cidade para fugir da badalação e novamente voltar à estrada e chegar ao pouso da primeira noite da expedição, o hotel Botanique. Amanhã, até Amyr em contrário, o dia será puro asfalto, para cruzar o estado de São Paulo e pernoitar em Presidente Epitácio, quase no Mato Grosso do Sul.

ONDE ASSISTIR
A viagem poderá ser acompanhada no site da Honda (www.honda.com.br/pro-outro-lado-da-america), bem como nos canais sociais da marca no Facebook (www.facebook.com/hondaautomoveis e www.facebook.com/HondaMotosBr), no YouTube (www.youtube.com/hondabr e https://www.youtube.com/hondamotosbrasil), no Instagram da Honda Motos (www.instagram.com/hondamotosbr) e nos canais dos portais AutoInforme e ECOInforme.